Fui vestir a (enorme) camisola do Pai, que tomei como minha sem que ele percebesse e escondi-me, pequenina, dentro dela, para que a música se unisse ao seu efeito de fortaleza e fizessem aquecer um bocadinho o ambiente, pelo menos o de cá de dentro.
É hora de voltar. Tenho a sensação de ter andado por meio de nenhures demasiado tempo, demasiado às aranhas, demasiado sem saber por onde ir, demasiado perdida (até para mim). Perdi-me no tempo e perdi o tino a rotinas, que tanto me lembram os rituais que a raposa do (meu) principezinho falava e que faziam com que um dia fosse diferente dos outros dias e uma hora, diferente das outras horas. E eu que sempre fui a (tua) raposa, sempre com uma energia tão solarenga, um coração tão pronto a dar e tão arranjadinho para receber, esqueci-me por momentos do que sempre se pintou em mim como uma regra. Portanto, hoje o frio tomou conta do coração, fê-lo tremer e fê-lo chorar por ter andado perdido demasiado tempo e por ter anseado demasiado por um destino. Mas tudo o que é demais é exagero, dizem, e está na hora de voltar, que todas as coisas tem o seu tempo, todas as coisas acontecem por um motivo e eu, de espírito positivo, acredito que os dias cinzentos existem para sabermos dar valor aos que enchemos de cor.
Hoje, quando me for deitar, com a camisola do Pai vestida, música a dançar no quarto e no coração, vou relêr o Principezinho pela milionésima vez e vou adormecer sossegada, que hoje cansei-me de uma vez por todas de andar perdida, que esta jornada por meio de nenhures teve muito de bom e ensinou-me muitas coisas, mas é hora de voltar.
Vem rasgar o escuro desta chuva que sujou!
Vem que a água vai lavar o que me dói!
Vem que nem o último a cair vai perder