Cheguei, respirei tão fundo que o ar frio quase me congelava o umbigo, fechei os olhos e no segundo em que podia ver o que quisesse, imaginei que se calhar a magia da última vez já não existia e quando abri os olhos, certifiquei-me que não podia e não iria cair na tentação de procurar pela "magia da última vez".
E ali estavam, o ambiente e as pessoas que pareciam estar ali desde sempre, a viver os vermelhos perdidos no cinzento e as esquerdas trocadas com as direitas como eu nunca tinha reparado. Eu, que estava só de passagem, quase me senti parte daquele quadro pintado com gentes de todos os tamanhos e feitios que deixavam de parecer diferentes e encaixavam perfeitamente umas com as outras. Primeiro de tudo, era o cheiro das bolachas pipoca, que me lembravam de casa e do teatro musical e me faziam pensar que só tinha atravessado a rua. Depois, era o cheiro a molhado que jogado com as cores fazia tudo parecer 'como nos filmes'. E a seguir , o cheiro a 'Fish and Chips', horroroso, que me puxava os pés à terra e me gritava que Londres não era (só) como nos filmes!
Fui andando... sem noção nenhuma do tempo (e, provavelmente, do espaço) e a delirar com tudo o que soava a novo e a diferente. Acertei o relógio pelo Big Ben (que de pouco me adiantou, visto que estou destinada a perder o tino ao tempo). Andei no metro apilhado de gente e fiz questão de tentar decifrar cada pessoa através dos sorrisos escondidos e dos sapatos rasgados. Chorei e estremeci com as vozes nos musicais que me fazem atingir niveis de sonho e felicidade (ou como lhes queiram chamar) impensáveis. Imaginei-me a desafiar a gravidade, só de ver o cartaz do Wicked ao longe e acreditei (apenas por um bocadinho), que um dia, talvez pudesse subir a um palco daqueles, pintada de verde. Pisei a terra, e não fiquei triste por 'cair na real' ao perceber que não. Cantamos alto ("Love me, love me, say that you love me!...") quando nos mandaram embora do hard rock porque era meia noite e eles tinham de fechar. Imaginei-me numa audição como a que vi no Royal College of Music com aquela professora de canto tão simpática e tão inglesa... Misturei-me com aquele povo todo na praça que tem a estátua do Nelson que venceu Napoleão e fui como mais gosto de ser - fascinada, com pessoas de todos os lados, com vontade de correr e trepar para cima dos leões, sem preocupações, fui , simples(mente)! «Como se todas as coisas fossem minhas!»
E foi perdida no mundo que descobri que tinha de voltar para onde as coisas têm de ser conquistadas. Onde tenho de voltar a preocupar-me no que sou e como sou e porque sou. Ou talvez não.
(Porque) hoje, quando estava na Torre, num daqueles almoços com a família toda que nunca mais acabam, a dançar com o pai, a ouvir as discussões acesas dos Sarmentos, a brincar com os miúdos, perdida no cheiro de chocolate quente, descobri que não há melhor lugar que casa.

6 comentários:
Ola Xanda
Gostei muito do teu blogue. É uma viagem:-)
...reserva um bilhete para mim quando subires ao palco pintada de verde.
Luis (da Eira)
Beijos
Gosto mesmo muito, mas muito do que escreves e como escreves, acho que consigo ver e sentir aquilo que tu vês e sentes =)
beijinhos
Xaninha...senti londres na pele, pela tua descriçao! sem duvida!
Tu es espirito Xaninha!....e como eu gosto dele...e ainda bem que foste feliz na nossa terra =D
Melhor do que eu ir, é tu contares-me aonde vais.
Bjs, P.
Fazes os sentimentos fluir através de palavras e do teu olhar e riso que nunca esquecerei minha pim !!
A distancia pode ser alguma mas eu sempre estarei aqui para ti :)
É bom viajar assim contigo, em ''1a classe'' pelas palavras que nos levam por entre o fantastico e o real tão depressa que nos apetece logo simplesmente ficar..., a 'tua' Londres também já foi 'minha' tantas vezes e em diferentes etapas do meu desenvolvimento pessoal. Adorei a 'viagem' de hoje. Igualmente interessante a forma como não escondes o pior de Londres, até lhe dás côr..., reserva um bilhete para o dia em que estiveres no 'teu' palco ''toda pintada de verde'' ou outro colorido qualquer.
Para quando a 'proxima viagem' e para onde nos vai levar?!
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