domingo, 14 de junho de 2009

Lado errado da noite

A noite caía em nós, escondida nas nuvens, escondida do tempo. E eramos três ali, quase como se um apenas, no cimo daquele telhado, um tanto mais longe de tudo.
Ali nos deitamos, três umbigos virados para o espaço, à procura do norte. Ela, com as incertezas presas nos caracóis, pestanas húmidas e coração trémulo - perdida. Ele, no meio, mãos atrás da cabeça e pernas cruzadas, clamando em surdina um sinal qualquer que o fizesse perceber aquele turbilhão de emoções e lhe dissesse que caminho seguir, cansado e perdido. Eu, olhos postos na única estrela que se via, procurava no meu peito um motivo forte para ter deixado o meu coração ir daquela maneira, se ter perdido daquela maneira, enquanto sussurava It started out with a kiss, how did it end up like this? It was only a kiss, it was only a kiss... enquanto fechava os meus olhos com força procurando afastar a minha imaginação de trilhos indesejáveis para não me perder.
O ar ensaiava o peso daqueles corpos cheios de sei-lá-o-quê, quase colados ao céu. Falavamos de medos, de dias felizes, do silêncio; falavamos em silêncio quase e as palavras iam ficando no ar e iam se entranhando devagarinho... Sei lá quanto tempo ali ficamos, com o lado mais escuro à vista da noite. Sei lá quantas imagens e ideias foram ali arrancadas aos poucos para doer menos. Sei lá quantas maldições lançamos aos céus por às vezes nos darem semelhante nó no peito que quase não conseguimos respirar. Sei lá das tolices tão cheias de razão que partilhamos. Oh, sei lá.
Ela explodiu em lágrimas de coração confuso e Ele em meias-palavras lá se foi percebendo e explicando enquanto eu os segurava num abraço muito forte porque não havia trilho indesejável que não ultrapassasse tendo-os ali, minhas pessoas que eram. O vento levou as nuvens e um bocadinho do peso que ali se instalara e apesar da bússula ainda não estar arranjada, o norte já se fazia sentir algures pelos nossos lados. Saltamos do telhado e eu armada em corajosa saltei sozinha, como quando era miúda, só para provar a mim mesma que era capaz, que ainda sou forte e corajosa para dar um salto no desconhecido de vez em quando. Bem feito! (que) fiquei com os pés doridos porque o chão nunca mais chegava, mas foi tal o aperto na barriga que só me deu foi vontade de rir. Fosse sempre assim...
Ele entrou em casa, (quase a medo, aposto!), pronto para perceber o que sentia e resolver alguma coisa dali, numa conversa torcida entre-paredes com a outra que já lá o esperava.
Ela olhou para mim e sorriu-me, quase com medo do que se passaria ali dentro com os outros dois. Música. Música que nos levasse os medos e me levasse a ânsea pelo outro que se viria juntar a nós e que estava a chegar. E dançamos, dançamos, dançamos e cantamos a plenos pulmões Oooh, you set my soul a-light! quase como se aquele sufoco saísse de dentro de nós pelos dedos que desenhavam no ar amarguras quase ridículas e que rompiam na voz cansada e agitada ao mesmo tempo: Oh baby, don't you know I suffer? (...) How long before you let me go?

E foi tudo de uma tal maneira que nem parecia real. Sei lá eu o que nos faz sentir tanto estas coisas que parece que nos remexem nas entranhas mais profundas. Sei lá eu como lidar com isto. Sei lá eu! Ela diz que somos ridículos porque nos damos sempre tanto que nos tornamos incrivelmente vulneráveis, subimos as escadas até bem lá acima só pelo prazer que nos dá o caminho e já com a certeza que o pé nos há-de fugir a certa altura e nos vamos estatelar todos no chão, mas mesmo assim, ridículos que somos, fazêmo-lo, para vezes e vezes sem conta nos vermos no meio do chão, a chorar baba e ranho, à espera de uma chance para recomeçar e voltar a subir, para voltar a cair. Ela diz que há-de ser sempre assim, que é assim que funciona. Eu, naive que sou talvez, gosto de acreditar que não, que não faz mal ir vendo, ir dando devagarinho, ir subindo, que estas quedas servem mais é para aprender. O degrau onde tropeçamos não pisaremos mais e pelo menos esse não nos fará cair de novo...


- Fuck, this hurts so much.
- I know it hurts. That's life. If nothing else, It's life. It's real, and sometimes it fuckin' hurts, but it's sort of all we have.

8 comentários:

Marianinha disse...

Este texto deixou-me sem palavras e de lágrimas nos olhos: pelo carinho, pela cumplicidade, pela ternura e pela amizade (que já são características habituais dos teus textos e que os tornam uma doçura :)).
Eu sou naïve como tu, eu gosto de acreditar que é com estas quedas que se aprende e que se ganha força. Porque tens razão, quando mais se dá, mais recebe. E se nos sabe bem enquanto subimos esses degraus, nessa mesma forma inocente e até mesmo pura, porque não continuamos a subir? Como já uma vez me disseste onde doeu desta vez, não voltará a doer, e se doeu, tornou-nos mais fortes, para da próxima vez voltarmos a dar, de uma forma inocente e até mesmo pura e quem sabe se não é dessa que não voltamos a caír?

Um beijinho Xaninha :) **

Tani disse...

Fossem estas personagens ficticias e teria eu ficado descançada. Nao sendo, nao descanço, porque sou mae.

Alexandra disse...

Adorei :') *

Anónimo disse...

Até me sinto mal, em estar sempre a estragar esse turbilhão de sentimentos tão bem descritos e importantes para ti, provocados por uma série de reações quimicas no teu corpo proprias da adolescencia, dizendo... ¨VAI ESTUDAR!!!!¨ Daqui a 2 dias estas LIVRE!!.
Bjs P.

Joaninha disse...

"Eu, naive que sou talvez, gosto de acreditar que não, que não faz mal ir vendo, ir dando devagarinho, ir subindo, que estas quedas servem mais é para aprender."

Adorei mesmo... E fiquei sem palavras como sempre que leio o que tu escreves.

Bjinhos Xaninha*

Joana M. disse...

Três é multidão. Então entre amores, nem fica bem em fotografias.


Espero que te voem as dores, os medos, as tolices partilhadas, cheias de razão, Xana. Que haja sopro para isso, querida.

Um beijinho *

Anónimo disse...

Love reading you.
Yes your ''fiction'' could just be some of my reality » indeed a very dear and important part of it, true feelings that start with a kiss simply nerver end! They will fly away to return, will flow within you in 'silence' for a life time, but will always be there...
...Be positive, be free of past dues..., set your mind to the best of reality you can manage today, dream about tomorrow and 'fight' for that special moment that 'never comes' and you're just living, loving..., living..., loving...:) XD

Anónimo disse...

...TODAY! @ Teatro d'Avenida ''break a leg'' for your 'CAOS' :)