sexta-feira, 8 de maio de 2009

Shall we (dance)?



O Sol estava de volta. O cheirinho a verde de Boelhe-em-flor deixava uma frescura na alma e na pele que me fazia dançar. Saias esvoaçantes, cabelos esvoaçantes, sorrisos esvoaçantes. Quase me convenci que podia viver só com aquela sensação. A liberdade enamorada com a pertença - como se o mundo nascesse ali e por ali ficasse. A minha alma amarrada ao sossego que procurava, longe e escondida do que pesa e do que torce, porque naquele momento era ali que o mundo nascia e era por ali que ficava. E eu dançava, como se dançar fosse viver na ponta dos pés, sentir ao de leve o Sol e o coração a cantar.
Sem deixar a sensação fugir, enfiei-me no carro, rumo de novo ao ritmo citadino, que, apesar de não ter um sossego que se amarra na alma, tem a pressa que a faz correr, tem um outro tanto que me prende e não me deixa querer viver de outra maneira. Do outro lado do vidro, o mundo ia fugindo de mim a olhos vistos, como se a realidade fosse o tempo e não houvesse pressa de chegar nem tão pouco de partir. Como me julgava menina do Mundo, menina do Sol. Como me via lá fora, na corda bamba entre a realidade e o sonho, sem querer saber do tempo, esse doido, que andaria atrás de mim a lembrar do sono trazendo a noite que eu iria a toda a força ignorar e ia dançar com a Lua até cair de cansaço e voltar a acordar e começar de novo, muito menina do Mundo, muito menina do Sol.
Cá dentro a história era outra. No coração dançavam memórias veronis ao som da música que as ilustrava. As danças de pés descalsos a levantar o pó do chão, as madrugadas que anunciavam o fim dos segredos arrancados pelo escuro, as noites à volta das guitarras e das vozes, os jantares de família com recordações servidas à mesa, a outra família, mais musical ainda, a partilhar sorrisos, o adormecer num peito que fazia o meu entrar em alvoroço, passinhos de bailarina por tantos sítios, por tantos corações em que fui entrando devagarinho, sem pedir licença e onde me fui deixando ficar...

E tinha a paz na alma, porque era em mim que eu sentia que o mundo começava, mas tinha a certeza absoluta que não era por ali que ficava, por muito se estendia e me puxava para ele e eu tinha mais é que me agarrar a essa viagem sem destino. Havia de chegar onde quisesse que o mais importante seria o caminho percorrido.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

"aqui está frio demais para me sentir... mas queres ficar?"

Faz frio e hoje o frio é geral. Faz frio cá dentro também e até por dentro eu tremo.
Fui vestir a (enorme) camisola do Pai, que tomei como minha sem que ele percebesse e escondi-me, pequenina, dentro dela, para que a música se unisse ao seu efeito de fortaleza e fizessem aquecer um bocadinho o ambiente, pelo menos o de cá de dentro.
É hora de voltar. Tenho a sensação de ter andado por meio de nenhures demasiado tempo, demasiado às aranhas, demasiado sem saber por onde ir, demasiado perdida (até para mim). Perdi-me no tempo e perdi o tino a rotinas, que tanto me lembram os rituais que a raposa do (meu) principezinho falava e que faziam com que um dia fosse diferente dos outros dias e uma hora, diferente das outras horas. E eu que sempre fui a (tua) raposa, sempre com uma energia tão solarenga, um coração tão pronto a dar e tão arranjadinho para receber, esqueci-me por momentos do que sempre se pintou em mim como uma regra. Portanto, hoje o frio tomou conta do coração, fê-lo tremer e fê-lo chorar por ter andado perdido demasiado tempo e por ter anseado demasiado por um destino. Mas tudo o que é demais é exagero, dizem, e está na hora de voltar, que todas as coisas tem o seu tempo, todas as coisas acontecem por um motivo e eu, de espírito positivo, acredito que os dias cinzentos existem para sabermos dar valor aos que enchemos de cor.
Hoje, quando me for deitar, com a camisola do Pai vestida, música a dançar no quarto e no coração, vou relêr o Principezinho pela milionésima vez e vou adormecer sossegada, que hoje cansei-me de uma vez por todas de andar perdida, que esta jornada por meio de nenhures teve muito de bom e ensinou-me muitas coisas, mas é hora de voltar.

Vem rasgar o escuro desta chuva que sujou!
Vem que a água vai lavar o que me dói!
Vem que nem o último a cair vai perder

quinta-feira, 23 de abril de 2009

"Acho que chegou o tempo de abrir o sinal..."

Fiz como tinhas dito.
Despi-te o meu coração muito devagarinho, tentei explicar-te por palavras o que à tanto tempo tinha a viajar-me no peito e na barriga num desassossego só, ao meu jeito de não conseguir esconder verdades que tu descobres sempre (mesmo sem eu falar), tudo muito pensadinho, bem contra a tua vontade de me entrar mente dentro e arrancar verdades nuas e cruas que eu optei por servir com calma, medindo cada consequência que elas teriam no teu olhar. Ás vezes, acho que me esqueço que és tu e que não há nada que não te possa dizer...
Não podia ser de outra maneira, destorceste a minha alma de mulher(zinha) e mostraste-me mais uma vez como tudo era tão fácil e como tudo se desenrolava às mil maravilhas entre nós. E eu que me deixasse de querer dar nomes a sentimentos e me resignasse a vivê-los e a senti-los que isto é uma coisa boa e não exige tabelações. Mas tenta perceber que há uma altura em que é preciso dar explicações à alma, é preciso descontruir as situações e percebê-las depois de as ter vivido, sentido e sugado até ao tutano.
Fiquei mais leve e tirei pés do chão e cabeça do ar o resto do dia.
Mesmo assim... Fiz como tinhas dito.
Desci à mesma praia que desço sempre que preciso de um abraço de maresia e de vento-norte a refrescar o coração. Ouvi-te em surdina: inspira...e expira! complicações?! fora com elas!, que eu gosto de tornar metáforas em realidade e espantei gaivotas juntamente com o peso na consciência de (achar) ter-te escondido alguma coisa que devesse ter-te posto a nu mais cedo. Pelo menos por momentos... Pelo menos enquanto o Sol beijava o mar e pintava tudo com quantas cores o vento tem!
Porque eu vou continuar a despir(-te) o meu coração, muito devagarinho, até aprender a lidar com isto sem ficar com o peito e a barriga num desassossego só!

Itálico
"you make it easier when life gets hard"
...
...
Apesar de tudo, hoje senti ao de leve uma brisa de liberdade que trouxe saudade de quando eu tinha os sonhos na mão e voava para onde quisesse, quando quisesse e nada mais importava.
Todo o dia a minha alma cantou Strawberry fields forever e sonhei, (mesmo com o sinal aberto) *

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Mais um bocadinho, quase sem se dar conta...

Eram flores e sorrisos aos molhos - que a Primavera tráz muito mais que alergias e reviravoltas do coração. Era o Sol que enganava o frio e prometia, pelo menos, aquecer a alma. Era o cheiro a chocolate e o fogo serpenteante da lareira que quase lembram o Inverno que se foi. Eram os miúdos, com a inocência a dançar-lhes no olhar, tão leves que quase voavam. Eram os grandes, os maiores de todos, com a vida bem cravada na pele, por entre memórias de tempos de uma guerra que deixou feridas tão fundas, feridas na alma, que me assusto só de pensar, gravadas na voz de quem viveu, na dureza de quem não pôde resistir; memórias de tempos em que unidos resistiram, foram mais fortes e fizeram-se ouvir em canções de revolta que lhes queimava o peito de tanta urgência, que fizeram valer vontades mudando o sistema de cravos na mão. Era a música que vinha de todos os lados, de todas as épocas e gerações; era a música que nos cantava ao coração. Eram as cordas da minha guitarra que escondiam sonhos assustados de ver a sua luta interrompida por momentos e a minha voz, em silêncio, em sintonia com um coração a dançar de alegria e aconchego mas num desassossego de não poder cantar, de não poder cantar-te, de não poder perceber-te, de não poder perceber-nos, de nem sequer nos poder ter por já nos termos tanto um ao outro. Eram flores e sorrisos aos molhos, abraçados numa sensação de pertença que só sinto aqui e não dispenso, que desenham o que tantos procuram e eu encontro cada vez que cheira a chocolate, cada vez que os miúdos voam, cada vez que há conversas cruzadas na mesa de memórias cravadas na pele, cada vez que o coração fica em (desas)sossego, cada vez que há abraços que perduram e acordes de guitarra a dançar no ar.



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- Estás feliz, avô?
- Não, filha. Mas não te preocupes, são cá coisas minhas...

Lá porque te esqueceste do que é a felicidade não quer dizer que não tenhas sido dono dela, que não sejas ainda, que há coisas que o sorriso não esconde e eu bem vi no fundo dos teus olhos a cor do orgulho de nos teres ali a encher-te o coração dorido pelo tempo.

Tu tens medo de não nos teres ali sempre, sei-o eu. Mas fico mais um bocadinho... Até não poder ficar mais! Nem que as feridas no coração e a dureza de espírito me empurrem, eu fico.

quarta-feira, 25 de março de 2009

"Aiiiii, menina..."

Apetece-me (part)ir.

O Sol hoje brilhou no meu sorriso e eu cantei e dancei ao som da guitarra e das palhaçadas do Mário. Esvaziei a cabeça, pus asinhas nas procupações e atirei-as janela fora para irem dar uma volta enquanto eu estava ali a ser feliz! Elas que voltem mais tarde que agora não é sua a hora. Pintamos gargalhas-até-doer-a-barriga, registamos os laranjas que me entravam casa dentro, olhos dentro, alma dentro e comemos chocolate às escondidas! Tão simples como a melodia das nossas vozes e da guitarra, do conheço-te-de-gingeira e do não quero saber de mais nada agora! A avó tem razão, temos mesmo sorte em termos construído uma amizade assim. Hão de nos tirar muita coisa nesta vida, que isto não é como nos contos-de-fadas que nos contavam quando eramos miúdos e que eu devorava e tu acabavas logo com vitória, vitória, acabou-se a história, que isto de ser-se grande acarreta uma data de responsabilidades que eu nunca quis ter de lidar e tu, diga-se de passagem, também não, que o mundo é bem mais fácil como nós o fazemos: sem gente complicada, confusa, sem prazos, sem ter de prestar provas a todos e mais alguns. Isto de nos atirarem de repente para uma realidade nua e crua não é assim fácil e o ter de andar aqui a dosear as coisas, a por sonhos e melodias de felicidade onde há trabalhos atrasados, professores zangados, pais aborrecidos, gente sem saber o que fazer, (para não falar de crises económicas a nivel mundial, que isso dava pano para mangas) tem muito que se lhe diga...
E é nestes momentos que eu agradeço muito quando tu apareces cá em casa, vindo do nada, com a alegria à flor da pele e eu posso por asinhas nas preocupações, mandá-las janela fora e dançar de pernas-pro-ar ao som do nosso coração (e da minha guitarra que tu tanto gostas!).

Pior é que este final de período traz consigo um reboliço que nasce no umbigo de ter andado o cúmulo da distração em tudo que é responsabilidade, ainda por cima sem saber porquê! E agora é que vai ser bonito quando eu vir os reflexos destas férias-no-mundo-da-lua que em mim são um bocado usuais e não deviam, não deviam mesmo! e levar um estaladão da minha consciência por ser assim.
Ai, ai que isto tira-me do sério, eu juro...

Por isso é que me apetece ir. Qual acto de cobardia pura. Bem antes das responsabilidades que foram janela fora terem tempo de voltar e andar uns tempinhos sem pensar em nada! Para quando voltar poder tratar delas sem as sentir muito apressadas no meu peito e arranjar umas novas, que isto não é como nos contos-de-fadas que nos contavam quando eramos miúdos e que eu devorava. É melhor. É real. E dá-me a chance de ir e vir quando eu quiser (tendo em conta certos parâmetros que não me apetece medir agora).




Portanto, apetece-me ir... Mas vem comigo e traz os sonhos :)

sexta-feira, 13 de março de 2009

Nas paredes de uma Alma que dança...


O coração pulsava-me nos tempos e nos contra-tempos da música que me dançava na alma. Tínhamos de dizer alguma coisa porque já estava na altura de falarmos a sério sobre isto outra vez, ou pelo menos mais conscientemente. Aconchegou-me no seu peito, com os braços, com palavras e com o coração a dançar ao ritmo do meu. Sem reparar, fez-me confiar nele de uma maneira que eu ainda não tinha experimentado e mostrou-me o nosso que isto era e não fazia mal não saber explicar e mais ninguém perceber. Só sei que senti um conforto bom demais, por poder confiar nas palavras que dizia e no coração que dançava ao ritmo do meu.
Guardei o momento e colei-o nas paredes da alma. Pelo menos a recordação já ninguém ma tira!

O Pai veio-me buscar. Eu sentia-me bem e sei que ao ver isso ele se sentiu também. Conversámos imenso com uma facilidade enorme em nos percebermos mutuamente, o que tem tanto de problemático como de invejável! Eu saio a ti, pelo menos é o que toda a gente diz. Percebo essa realidade virtual (como diria a avó) que assusta toda a gente! Tu és um artista, só que nunca soubeste!
Chegamos a casa e senti o cheiro a home, sweet home que não sentia já à algum tempo. Eu sei que eles não devem gostar desta minha sensação, mas ainda agora só consigo sentir a casa preenchida e completa quando estamos os quatro. Como não estamos todos os dias sinto-a só de vez em quando e por ser só de vez em quando sinto-a mais e melhor, o que também não é, de todo, mau!
Eu e a João estavamos eléctricas! Fui a correr pôr o CD com a banda sonora do Amélie, porque naquele momento o meu coração já batia a compasso de valsinha e apetecia-me dançar! E dancei, oh se dancei, eu e a João, como doidas de felicidade que estávamos. O Pai e a Mãe sorriam de nos ver assim e aposto que só não se juntaram a nós porque pessoas crescidas não fazem destas coisas. Mas os olhos deles estavam loucos de alegria de nos ver ali a rodopiar e eu (que reparo sempre nestas coisas) vi-os dançar por dentro, estonteantemente, como quando eram jovens (não que o Pai fosse grande bailarino - aposto que não -, já a Mãe devia fazer inveja a quem olhava).
A noite alongava-se e eu não queria nada ir dormir, esta sensação enchia-me de tal forma que ainda não estava preparada para a colar na parede da alma e transformá-la em recordação... Queria vivê-la até cair na cama, tonta de tanta alegria, até não haver mais por onde ser feliz.




E assim foi, caí redonda, com o coração em compasso trenário, ao som do acordeão e do piano que ainda entoavam por dentro, com a alma recheada e com uma sensação de aconchego que não encontro todos os dias.




quarta-feira, 4 de março de 2009

Na corda bamba

Finalmente o comboio chegara e eu já sorria por dentro por poder esconder-me do frio que já me gelava o umbigo. Hoje o Inverno veio lembrar que ainda é seu tempo! Procurei-o como procuro sempre, já quase de forma inconsciente e sem o propósito de realmente o encontrar do outro lado do vidro a sorrir para mim. Em vez disso era eu que ali estava, meio a sorrir, meio perdida, a olhar como se visse alguém de quem não se tem a certeza de conhecer. Que crescida, de repente, eu parecia... Fui-me sentar ao lado de dois velhinhos, daqueles que viajam só pelo prazer de ver pessoas a passar e de pass(e)ar também com elas. Com o coração mais aconchegado, mais protegido do frio lá fora, olhei-me outra vez no vidro...

Agora eu ainda era pequenina e não me preocupava com o futuro. Agora eu voltava a não ter medo de nada e a querer exprimentar andar na corda bamba outra vez. Agora eu queria saber tudo do mundo e tinha a curiosidade aguçada como dantes. Agora eu era de novo A princesa, está bem? Agora eu era...só mais um bocadinho!

Mais do que tudo, não é justo crescermos sem pedir autorização. Não é justo perdermos a inocência e não é justo vermos a preto e branco o que outrora tão trabalhosamente pintamos a mil cores. Pelo menos vemos, diz a vozinha da consciência. Pelo menos vejo, repito para mim para me sentir melhor. Mas agora, só por agora, até o comboio chegar ao destino, eu não via o cinzento e sentia tudo muito simples (está bem?). E por um bocadinho eu esvaziava a minha cabeça e não pensava em nada... Só no bom e no fácil de se ser criança!
Deixem-me aproveitar mais um bocadinho, tenho todo o tempo do mundo para crescer...



Somos, tão simples(mente) que faz inveja!
Quais crianças, diria! (:


"And what a nice day for a murder.

You call yourself a killer but the only thing that you're killing is your time..."