Nunca fui muito fácil de perceber à primeira, mas também nunca fiz questão de o ser. Tinha um medo estranho de dar de mais, de me dar. E eu, que sempre jurei a pés juntos que não me havia de arrepender de nada que fizesse, naquele momento só lamentava não ter conseguido dizer mais, não ter dado mais no momento certo. Mais uma vez o tempo me tinha fugido por entre os dedos sem me dar oportunidade de o agarrar e guardar por um bocadinho. Ali deitada, quase que te ouvi a sussurrar ao meu ouvido a dizer para descomplicar, que era tudo tão simples, a dizer para eu voltar ao meu "mundo maravilhoso". E quis tanto acreditar nisso que não consegui evitar as lágrimas que pareciam guardadas à tanto tempo dentro do meu peito. E chorei, porque há uma altura em que a alma nos rebenta nas mãos. Chorei, não por estar triste, mas porque, pela primeira vez, sentia uma nesga de um arrependimento que não era (ou não devia ser) só meu. Eu não estava a complicar, não tenho culpa de me terem servido um prato assim difícil de digerir. Antes de voltar daquela realidade tão minha, flutuante por entre a chuva e pela melodia que ecoava dentro e fora de mim, comprometi-me a deixar ir, a voltar de facto ao mundo maravilhoso em que me vês viver, ou pelo menos a tentar...
Abri os olhos e senti-me tão tonta que se não estivesse já no chão cairia. Tinha anoitecido e a chuva, assim como a minha alma, tinha sossegado. Nunca vivi por etapas, porque se há coisa de que tenho a certeza é da continuidade das coisas, mas se vivesse, aquele seria o principio de uma nova. Então, fiz questão de abrir a porta que dá para a varanda, empoleirar-me no muro e respirar até ao umbigo. Senti o cheiro a maresia e junto deste uma leveza que procurava sem saber. Não foi um marco no tempo, porque ainda vai(s) ficar por mais uns tempos, ou quem sabe para sempre, mas isto vai-se tornando cada vez mais leve e mais leve...
"You'll go and I'll be okay, I can dream the rest away , Its just a little touch of fate, it will be okay. It sure takes its precious time, but it's got rights and so have I... I turn my head up to the sky, I focus one thought at a time. I do not let the little thieves under my tightly buttoned sleeves. You couldn't be alone, the time, I feel like I am walking blind. I have no where, I'll have time! There are no legible signs..."
5 comentários:
(unfinished business are a damn hard thing to deal with....but i'm so proud to see you grow like that..."Grow, slow, stand in for the fight. Yeah, I can see the world through you")
Ainda bem que voltaste :)
(e nao conehcia essa foto...Bonita :))
É verdade que a vida não se vive por partes ou etapas e tudo é sequência e consequência do que fazemos e somos também não é mesmo vedade que há momentos que nos marcam de tal forma que numa retrospectiva e reflexão percebemos o quanto são importantes e funcionam como "marcos" na continuidade do que vivemos. As tuas reflexões são lindas, profundas e quase me levam a pensar na irreverencia de viver, ousar, descobrir e descobrir-se da adolescente que fui ...
Que bom é por vezes poder sentir a "alma que nos rebenta nas mãos"... Beijos. I <3 you
T.L.
gostei muito Xaninha :)
Revi-me um certo pedaço no teu texto. E chorei, porque há uma altura em que a alma nos rebenta nas mãos, eu costumo dizer que essa altura é quando o coração já pesa demasiado e dele chovem lágrimas, mas como já me disseram "eventualmente o peito deixa de doer", e essa altura não será uma nova etapa ou um novo marco, continua a mesma sucessão de acontecimentos que nos vão preenchendo e nos ajudam a, tal como tu disseste, tornar cada vez mais leves.
e muito obrigada pelo teu comentário. eu acho que temos sempre alguém a dar-nos um abraço quando não queremos crescer, mesmo sendo as mães, elas tambem não querem muito que cresçamos :)
um beijinho *
Onde está escrito que os momentos se perdem? não aprendeste nada? Estou a estranhar o teu fatalismo, O DIFICIL É SABER O QUE SE QUER, se sabes, também vais saber criar ¨momentos¨ e acredita que muito bonitos.
Os ¨momentos¨ não aparecem do nada, são a consequencia dos nossos actos, logo, se souberes o que queres os momentos não fogem, já estás à espera deles.
Mas enfim isto digo eu que de romantico não tenho nada, e ainda por cima sou homem e pai.
Bjs Princesa.
Ola:) Lindo!
Não, ''o tempo não foge'' quanto muito nós é que muitas vezes fugimos dele. Longe de mim querer 'jogar' nas tuas lindas reflexões de experiencia vivida e com fogo sentida que não pode ser mais apagada mas talvez guardada na 'caixinha' cerebral que o coração não sente e não manda mas marca o tempo, o momento... e mais tarde vais ter a certeza de nada ter perdido porque o tempo que te espera trará de longe uma ainda mais bela Primavera.
Olha lá longe no oceano e vê como o sol que se vai apagando de cá vai iluminando de lá, e de repente já nos aquece de novo, nunca nos abandona..., tu brilhas neste texto tal como o Sol, a tua 'luz' interior é tão forte que nem mil nuvens cinzentas te poderão 'apagar'. Por ti hoje nos permitimos reviver os dias mais cinzentos das nossas vidas, e quem os não teve?! Quem os não terá ainda?!
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