quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

o ar da sua graça.


Porque finalmente o Sol veio dar-me o ar da sua graça!
E eu gosto de ir no comboio com o Sol a reflectir no vidro e a aquecer-me o peito e a ponta do nariz, a fazer-me esquecer de que estou a ir para algum lado... Naquele momento estou só ali e pronto, a dançar e a cantar por dentro. Mas a voz, sem como nem porquê, desafia-me e entoa mais alto, dançante ao ritmo dos solavancos, e quando me apercebo, já alguém me sorri sem querer, por me ver tão distraída, tão criança, tão sem destino, tão sem como nem porquê! E, oh, que bem que me sabe retribuir à espontaneidade...
É então que se ouve a voz mecânica que está tão bem interiorizada como botão para acordar e voltar à realidade. Mas eu não volto, deixo-me ficar mais um bocadinho, só mais um bocadinho, convenço-me que desta vez me vou deixar ir até não haver mais linha para andar. O comboio pára. Eu mantenho-me imóvel e vejo toda a gente a entrar... No instante em que as portas se preparam para fechar e toda a gente já olhou quem saiu e quem entrou, eu traio a minha vontade e saio num ápice, quase sem ninguém dar por ela! (E uma gargalhada ecoa por dentro e brilha com o Sol!)
Subo a rua, preocupantemente despreocupada com o facto de me aproximar da realidade (de um teste dificílimo) que se aproxima e, que naquele momento, eu ignoro por completo. Olho as pessoas que passam por mim e que já reconheço do trajecto repetido de todas as manhãs: é engraçado como nos cruzamos com as pessoas, como elas se transformam em nós, mesmo não as conhecendo verdadeiramente, como é tão fácil desenhar uma personalidade escondida atrás de um olhar ou de um (não-)sorriso; e mais engraçado ainda é como as pessoas que temos presas a nós têm ainda tanto para nos dar a conhecer, nos deixam ainda tanto por descobrir e isso confunde-me quase tanto quanto me fascina, isto porque tenho a mania de unir os pontos todos tendo já em vista o futuro e esqueço-me que só o posso fazer relativamente ao passado.
Passei os portões e durante todo o dia consegui um equilíbrio entre a realidade e aquela nesga de imaginação em estado sólido agradável ao toque e ao sabor dos sorrisos que pintaram este dia de Sol.
De volta ao comboio, à estação, com os pés mais acentes na terra.
Fiz questão de ir à praia ver o Sol pôr-se... Ele acompanhou-me e abraçou-me com palavras que me ensinavam a ver o mundo e as coisas de outra maneira. Ficamos ali, até só se ver um rasto avermelhado no horizonte, juntamente com o som e o cheiro do mar que me gritavam a sua beleza e inquietude! Naquele momento, tive certeza de um para sempre qualquer, mas como não tenho muito jeito para dizer estas coisas não o disse. Mas eu sei que ele percebeu. Só lhe consegui agradecer por me ter ensinado mais um bocadinho, por se ter deixado descobrir um bocadinho mais e por ter descoberto um bocadinho mais de mim...



(Algarve08)

E o Sol desapareceu, perdido no horizonte, reflectido no mar, com a certeza de me ter proporcionado um dia não mais que normal, mas que afirmou e sublinhou o sossego contrabalançado com a pressa interior com que gosto de viver!


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

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Cheguei. Tinha a respiração ofegante e o coração acelerado, como se tivesse estado a fugir de alguma coisa durante muito tempo. Abri as cortinas na esperança de ver o Sol - que insiste em não vir - e, deparada com o quadro lá fora resignei-me à chuva e ao vento que pintavam tudo de cinzento e punham o mar num alvoroço. Ainda ponderei fingir que não era este o cenário: fechei os olhos e imaginei o Sol por segundos, mas a chuva caía de tal maneira que não tive como a ignorar. Liguei a aparelhagem, para que as melodias e os trejeitos dos sons me enchessem o peito e, enquanto a água do chá aquecia, deitei-me no chão a ouvir a chuva, a sentir a música, a por ideias em ordem, a sossegar a alma...
Nunca fui muito fácil de perceber à primeira, mas também nunca fiz questão de o ser. Tinha um medo estranho de dar de mais, de me dar. E eu, que sempre jurei a pés juntos que não me havia de arrepender de nada que fizesse, naquele momento só lamentava não ter conseguido dizer mais, não ter dado mais no momento certo. Mais uma vez o tempo me tinha fugido por entre os dedos sem me dar oportunidade de o agarrar e guardar por um bocadinho. Ali deitada, quase que te ouvi a sussurrar ao meu ouvido a dizer para descomplicar, que era tudo tão simples, a dizer para eu voltar ao meu "mundo maravilhoso". E quis tanto acreditar nisso que não consegui evitar as lágrimas que pareciam guardadas à tanto tempo dentro do meu peito. E chorei, porque há uma altura em que a alma nos rebenta nas mãos. Chorei, não por estar triste, mas porque, pela primeira vez, sentia uma nesga de um arrependimento que não era (ou não devia ser) só meu. Eu não estava a complicar, não tenho culpa de me terem servido um prato assim difícil de digerir. Antes de voltar daquela realidade tão minha, flutuante por entre a chuva e pela melodia que ecoava dentro e fora de mim, comprometi-me a deixar ir, a voltar de facto ao mundo maravilhoso em que me vês viver, ou pelo menos a tentar...
Abri os olhos e senti-me tão tonta que se não estivesse já no chão cairia. Tinha anoitecido e a chuva, assim como a minha alma, tinha sossegado. Nunca vivi por etapas, porque se há coisa de que tenho a certeza é da continuidade das coisas, mas se vivesse, aquele seria o principio de uma nova. Então, fiz questão de abrir a porta que dá para a varanda, empoleirar-me no muro e respirar até ao umbigo. Senti o cheiro a maresia e junto deste uma leveza que procurava sem saber. Não foi um marco no tempo, porque ainda vai(s) ficar por mais uns tempos, ou quem sabe para sempre, mas isto vai-se tornando cada vez mais leve e mais leve...

"You'll go and I'll be okay, I can dream the rest away , Its just a little touch of fate, it will be okay. It sure takes its precious time, but it's got rights and so have I... I turn my head up to the sky, I focus one thought at a time. I do not let the little thieves under my tightly buttoned sleeves. You couldn't be alone, the time, I feel like I am walking blind. I have no where, I'll have time! There are no legible signs..."

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Dias de sol (desenvolvimentos e conclusão)

Fazia tenções de escrever durante as férias a contar os rodopios que andava a fazer pelo (meu) mundo, mas ao que parece (e ao que só reparei quando já era tarde), não houve tempo nem vontade de o fazer! Portanto estou a fazê-lo agora, muito por alto. Os pormenores ficaram guardados e ainda estão quentinhos por causa do sol de verão e espero que se mantenham assim durante algum tempo, mas desta vez guardo-os para mim e para quem os viveu comigo.

Foram dias grandes que passavam a correr, dias bons de mais, e até os dias de chuva traziam o Sol guardado!

Andei uns diazinhos entre Casa e Boelhe, no aconchego dos amigos e da família a descansar do mundo (da escola) e a respirar os primeiros dias em que sentia o Verão como o gosto de sentir, sem tempo, nem destino, nem propósito; com muito sol e mais música ainda. Depois, tive aquela semaninha no Algarve (eu e mais metade de Portugal) com muita praia, gelados e a minha guitarra que cantava com o pessoal. (Tenho que dizer que estes dias são sempre bons para ter a mãe e a mana [com que estou todos os dias] num contexto diferente, portanto, é sempre uma descoberta!) E mesmo na altura certa, muito de repente, muito sem pensar (ou a pensar muito em pouco tempo), estava eu num comboio, a caminho do Porto para no dia seguinte voar até ao Andanças! Foi quando me senti bailarinicamente mais eu, quando viajei pelo mundo inteiro e pelo tempo nuns passinhos de dança, quando voei como o vento e fui de todas as cores, foi quando abracei a natureza e a arte que me rodeava e fiz-me disso. E guardei tudo no fundinho de mim para nunca me roubarem esta sensação e mesmo assim mantive-a à flor da pele até agora e sempre que me lembro danço por dentro!
Seguiu-se Boelhe, que, como é escusado dizer, tem-me como mais nenhum lugar tem e proporciona-me sempre sensações de 'renascer' ... E eu permaneço (e pertenço) lá, mais que em qualquer outro sitio do mundo! Aproveitei o sossego do campo e serenei nos braços dos primos e amigos sem eles sequer se apreceberem. Para contrabalançar esta paz toda juntei-lhe a energia acumulada e dancei e cantei e vi o sol nascer e o sol fugir: primeiro com a minha Ritinha por lá , que me ensina sempre como é ser-se forte por dentro sem sequer ter disso noção, e depois com a família TM que me Dá sempre muito e saboreou comigo o ritmo quente das festas da aldeia e (quase garanto) que voou comigo também! Claro, como não podia deixar de ser, os de sempre, que independentemente de tudo estão lá, mesmo quando não estão: o Mário, o Filipe, o João, a minha irmã, a Vera, o Pipe, o Xico e o Manelzinho.


Portanto, por entre danças e contra-danças eu rodei e enchi-me de vida!
Mais do que tudo senti-me crescer! Aprendi o dificil e a responsabilidade de tomar decisões, aprendi a saber usufruir dessas decisões, aprendi a lidar com as consequências! E doi. Por isso, ainda bem que tive tudo isto a que me agarrar e tudo isto para me tornar mais forte para quando tiver de crescer mais ainda...

O facto é, que no fundo, continuo a criança que vou ser para sempre, que mais não seja porque assim eu quero! :)


"SUMMER TIME - (happiness only real when shared)"
(na foto: Pi, Eu, Tania, Filipe e Mário)




segunda-feira, 21 de julho de 2008

Dias de Sol (Introdução)

Há 3 meses e seis dias que não escrevo.
Foram muitos ensaios e distrações com coisa nenhuma, foi o fim do ano lectivo e um retorno a Londres, foram os espectáculos e foi a pressa de viver.
Mas agora estou de volta e sinto as férias como ainda não as tinha sentido.



Por agora, vou pegar na bicicleta, andar à beira mar com a minha irmã e ver o sol pôr-se, com um sorriso nos lábios e o Sol no olhar e na alma!


(Isla Canela05 - Eu e a minha irmazinha, que nesta altura ainda era mais pequna do que eu !)



Volto em breve com histórias de dias de sol para contar :)

terça-feira, 15 de abril de 2008

Viagem na palma da mão

Pus a mochila às costas, tirei as asas do bolso e voei para Londres. Pus de parte toda aquela coisa dos '15 anos' e do crescer e mudar (que ultimamente me tem chateado um bocado!) e fui ser eu para outras paragens.
Cheguei, respirei tão fundo que o ar frio quase me congelava o umbigo, fechei os olhos e no segundo em que podia ver o que quisesse, imaginei que se calhar a magia da última vez já não existia e quando abri os olhos, certifiquei-me que não podia e não iria cair na tentação de procurar pela "magia da última vez".
E ali estavam, o ambiente e as pessoas que pareciam estar ali desde sempre, a viver os vermelhos perdidos no cinzento e as esquerdas trocadas com as direitas como eu nunca tinha reparado. Eu, que estava só de passagem, quase me senti parte daquele quadro pintado com gentes de todos os tamanhos e feitios que deixavam de parecer diferentes e encaixavam perfeitamente umas com as outras. Primeiro de tudo, era o cheiro das bolachas pipoca, que me lembravam de casa e do teatro musical e me faziam pensar que só tinha atravessado a rua. Depois, era o cheiro a molhado que jogado com as cores fazia tudo parecer 'como nos filmes'. E a seguir , o cheiro a 'Fish and Chips', horroroso, que me puxava os pés à terra e me gritava que Londres não era (só) como nos filmes!
Fui andando... sem noção nenhuma do tempo (e, provavelmente, do espaço) e a delirar com tudo o que soava a novo e a diferente. Acertei o relógio pelo Big Ben (que de pouco me adiantou, visto que estou destinada a perder o tino ao tempo). Andei no metro apilhado de gente e fiz questão de tentar decifrar cada pessoa através dos sorrisos escondidos e dos sapatos rasgados. Chorei e estremeci com as vozes nos musicais que me fazem atingir niveis de sonho e felicidade (ou como lhes queiram chamar) impensáveis. Imaginei-me a desafiar a gravidade, só de ver o cartaz do Wicked ao longe e acreditei (apenas por um bocadinho), que um dia, talvez pudesse subir a um palco daqueles, pintada de verde. Pisei a terra, e não fiquei triste por 'cair na real' ao perceber que não. Cantamos alto ("Love me, love me, say that you love me!...") quando nos mandaram embora do hard rock porque era meia noite e eles tinham de fechar. Imaginei-me numa audição como a que vi no Royal College of Music com aquela professora de canto tão simpática e tão inglesa... Misturei-me com aquele povo todo na praça que tem a estátua do Nelson que venceu Napoleão e fui como mais gosto de ser - fascinada, com pessoas de todos os lados, com vontade de correr e trepar para cima dos leões, sem preocupações, fui , simples(mente)! «Como se todas as coisas fossem minhas!»
E foi perdida no mundo que descobri que tinha de voltar para onde as coisas têm de ser conquistadas. Onde tenho de voltar a preocupar-me no que sou e como sou e porque sou. Ou talvez não.



(Porque) hoje, quando estava na Torre, num daqueles almoços com a família toda que nunca mais acabam, a dançar com o pai, a ouvir as discussões acesas dos Sarmentos, a brincar com os miúdos, perdida no cheiro de chocolate quente, descobri que não há melhor lugar que casa.









terça-feira, 4 de dezembro de 2007

O primeiro dia do resto da minha vida...

Mudei de escola. Disse que não ia embora do colinho dos amigos de sempre, que ia só crescer para outro lado. Mas como deixei de querer crescer, resolvi ir ver caras novas, pessoas novas, sentir a juventude toda de outra prespectiva e acima de tudo fui (re)começar. De facto era tudo novo, e não tinha outra alternativa se não ir descobrindo os cantinhos de cada um à minha volta. E depois sem querer, os sorrisos e os geitos a que eu me começava a habituar iam me cativando. E devagarinho comecei a esquecer-me que aquele (ainda) não era o meu canto e comecei a querer pertencer mais do que devia. É bom pertencer-se, mas não é assim. É bom ir-se devagarinho pertencendo, prendendo e gozando os bocadinhos. E não se pode pertencer a muito sitios ao mesmo tempo, e eu sei de onde venho e tenho a certeza que é por saber e por ter tanto "amor à minha camisola" que me adapto bem ao que não conheço, demasiado bem até, porque começo a andar depressa demais. E depois não ha mais nada para descobrir. E o que é bom é descobrir, ir desvendando e ir deixando desvendar... É preciso que seja devagarinho. É preciso que dê para gostar e para não gostar e é preciso que seja mais fundo que os olhos do meu primo Francisco e que dê para decorar cada canto e cada parede com momentos...
Mas é muito dificil controlar o tempo de forma a que ele siga como nós queremos, e era altura de o congelarmos, só para percebermos, para o "curtirmos" mais um bocadinho, termos noção que o que vem asseguir é diferente e que não podemos esperar nada dele. Ou até podemos, mas não podemos deixar que isso aumente ainda mais a velocidade e torne os momentos cada vez mais pequenos.
E agora só me apetece voltar a (re)começar... E vem me à memória uma frase batida "Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida".
A minha avó. Cativa(-me) mais que tudo e deixa-se
descobrir tão devagarinho, que hei-de ser velhinha e
ainda não a terei descoberto por completo.

domingo, 21 de outubro de 2007

Estação de Comboio

Agora que passo grande parte do meu tempo só a ir e a vir para algum lado, conheci verdadeiramente a estação do comboio. Às vezes sento-me no chão, com as pernas à chinês e fico a ver as pessoas passar. Pessoas que voltam, pessoas que vão. Pessoas com grandes sorrisos, pessoas com cara de quem carrega o mundo nas costas! Tem imensa graça. Vão todos para algum lado, procuram sempre alguma coisa, e aquele é o ponto de partida, a preparação para o que vai acontecer, nem que seja mais um dia de trabalho, ou um encontro, ou uma visita a alguem. É engraçado como lhes está estampado na cara a necessidade de encontrarem um sitio deles, porque ali, são só pessoas, e não importa de onde vêem, como são, ou o que procuram. São só pessoas e parece-me, muito sinceramente, que não gostam de se limitar a isso. Faz-lhes falta um rótulo, que fingem não procurar, mas que na realidade é inevitavel.

Acho que é por isso que gosto tanto de estações. Ali não sou ninguém. Sou quem quiser, quem os outros quiserem. É sabido que corpo instantaneamente reage ao pensamento, e então eu fico ali, a tentar desvendar os pensamentos dos outros e a formar pensamentos meus. Uma menina, contou-me que às vezes vai ver o Douro da ponte, congela fragmentos de tempo, toma-os como seus, vive-os e vê os outros viverem-nos. Essa menina, às vezes, também deve gostar de ser só pessoa.

Continuo a estar só de passagem pela estação, como a menina pela ponte, nunca hei-de pertencer ali. Eu sei onde pertenço, e se calhar é por saber que não receio sitios onde ninguem há-de nunca pertencer.